Um filho rico de um rico pastor, escrevendo sobre sua vida dentro e fora da igreja; em uma sutil forma de poesia.

terça-feira, 20 de maio de 2014

"O Propósito

    Um belo dia, no estacionamento do shopping, quando fui dar um passeio com uma das integrantes de minha seita, um vendedor ambulante apareceu tentando fazer seu trabalho assim que estacionei o carro. Gentilmente, pedi para que a garota fosse na frente enquanto eu fazia uma ligação importante.
 
_ Boa noite, senhor! Meu nome é Daniel. Estou vendendo...
_ Meu amigo, com licença, estou em uma ligação agora.
_ Pelo amor de Deus, eu estou passando por tantas necessidades.
_ Pelo amor de Deus? Desculpe, meu caro, não faço parte do povo Dele.
_ O quê? O senhor não acredita em Deus? Então como...
 
    Desliguei a chamada e desci do carro. Se esse sujeito quer conversar, eu tenho uma empolgante surpresa para ele.
 
_ Como eu o quê?
_ Como o senhor explica a minha libertação das drogas? Sozinho eu jamais conseguiria. Passei dez anos viciado principalmente em bebidas, trouxe muitos problemas para minha família e principalmente para minha mãe. Hoje ela dá glórias a Deus, pois pode dormir tranquila, sabendo que seu filho agora é uma nova criatura. O senhor deve ser inteligente, é rico e jovem, cheio de disposição. Você não acha que Deus tem um propósito na sua vida? Se esta conversa agora também faz parte dos planos de Deus para você?
 
    Às vezes eu me pergunto se Deus sente vergonha alheia da própria criação. Comecei um pequeno questionário para este filho de Deus deixar seu Criador orgulhoso.
 
_ Responda-me uma coisa, você acredita no poder infinito de Deus? Acredita que seu conhecimento é absoluto? Assim como ele está presente aqui, agora, do nosso lado neste estacionamento?
 
    O vendedor deixou seus produtos caírem para levantar as mãos aos céus. Até eu me assustei.
 
_ Acredito! Amém! Deus seja louvado! Obrigado, Senhor, por tocar no coração deste homem!
_ Calma, companheiro, alguém tocou no meu coração, mas com certeza não foi o seu Deus. Se você confirmou tudo que citei sobre Ele, responda-me outra coisa: Ele tinha o poder de livrá-lo a qualquer momento? Ou melhor, antes de você nascer, Ele já sabia do seu vício para poder evitá-lo?
_ Ah... Sim. Quero dizer, não entendi muito bem a pergunta.
_ Deus tem o poder de curar um viciado como você a qualquer momento, mas ele não o faz por algum propósito. Afinal, ser viciado não tem cura, certo?
 
    Daniel estava coçando a cabeça porque provavelmente não esperava ter uma conversa profunda.
 
_ E eu sei que proposito é esse! Ele me usou para glorificar o Seu nome, aleluia!
_ Antes de você nascer, Deus já sabia da sua queda no mundo das drogas. Como se a sua vida já estivesse traçada. E se você ainda nem nasceu, quem traçou este caminho pelo senhor? Quem foi o responsável por determinar esse destino tão terrível? De passar dez anos escravizado por uma substância que destruiu seu corpo e seus laços familiares?
_ Não estou entendendo...
_ O senhor sequer nasceu e já estava condenado a passar por isso tudo. Para glorificá-Lo, Ele o fez perder uma década da sua vida, arruinando seu corpo e fazendo-o magoar as pessoas mais importantes para você. E depois de dez anos, a sua recompensa por exaltar o nome Dele é vender DVDs piratas no estacionamento deste shopping.
 
    Gosto de silêncios constrangedores.
 
_ A... A minha recompensa é a salvação... Nada aqui neste mundo se compara ao que está no reino dos céus...
_ Já está salvo? É mesmo? Foi você que determinou isso antes do senhor nascer ou foi Ele? E se Deus quiser mais dez anos? Vinte? E se essa recaída começar agora?
 
    Destravei a porta do carro e peguei uma garrafa de uísque.
 
_ Desculpe-me senhor, tenho que ir... Não posso...
_ Calma, eu te pago para beber.
 
    Abri a garrafa e dei dois goles lentamente.
 
_ Ainda está gelada. Aqui, pegue, vou te dar isto se você der um gole. Diferente de Deus, eu te dou alguma coisa quando te peço para fazer algo por mim.
 
    Daniel pegou suas coisas no chão para ir embora.
 
_ Se o senhor não quiser, jogarei fora.
 
    Virei a garrafa e comecei a derramar o uísque.
 
_ NÃO! PELO AMOR DE DEUS!
 
    Ele veio correndo pegar a garrafa da minha mão e virou toda a bebida de uma vez. Esse cara fez jus aos dez anos de vício.
 
_ A parte onde você fica com o dinheiro é verdade, não estou brincando. Agora, só para refrescar sua memória, Daniel, a gente concluiu que Deus estaria aqui neste momento, do nosso lado. Pois é, se eu não O conhecesse também, diria que Ele está aqui rindo de você. O seu propósito, senhor, nada mais foi do que entreterimento divino. Assim como todos nós estamos aqui para divertir a sua divina graça.
_ Lúcifer? Você vem?
_ Já estou indo!
 
    Quando a minha acompanhante apareceu na porta e me chamou de Lúcifer, os olhos de Daniel se arregalaram.
 
_ Calma! É só um apelido carinhoso. Ou será que não?"

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