Um filho rico de um rico pastor, escrevendo sobre sua vida dentro e fora da igreja; em uma sutil forma de poesia.

quarta-feira, 4 de março de 2015

"Caro Cliente

Entregamos nossas almas como presente,
Pois a humanidade sempre foi deficiente,
Em perceber o quão inconsequente,
É a sua maneira de agir e depois pensar;

Reflitamos atentamente,
Os dias passam rápido e de repente,
Vemos o tempo que foi perdido, mas por que então ninguém sente,
Algo de novo se aproximar?

Nossa sociedade é uma farsa, obviamente,
Ela foi feita para se gastar, naturalmente,
É isso que deixa nosso coração tão contente,
Consumir, uma vontade difícil de se explicar,

Também difícil de se preencher completamente,
Porém, apesar desse vazio, ninguém aqui é cliente,
Somos todos vendedores incompetentes,
Com a menor noção de como negociar;

O resultado dessa doce ilusão, infelizmente,
É um prejuízo de almas que desenfreadamente,
Vai aumentando de maneira negligente,
E não temos feito muita coisa para mudar;

Existem dois principais compradores de almas atualmente,
Ambos tem a sua maneira exigente,
De observar atentamente,
Tudo que temos na 'loja' para mostrar;

Sabendo da nossa situação delicada, sinceramente,
Não tente mentir sobre seu produto, pois tenha uma coisa em mente:
Eles nos conhecem profundamente,
E não hesitarão de levar o produto sem pagar.

Muitos perderam a alma e tragicamente,
Fecharam as portas precocemente,
No entanto, se serve de consolo, independente do cliente,
Você vai ter que vender e com certeza eles irão levar..."


terça-feira, 20 de maio de 2014

"O Propósito

    Um belo dia, no estacionamento do shopping, quando fui dar um passeio com uma das integrantes de minha seita, um vendedor ambulante apareceu tentando fazer seu trabalho assim que estacionei o carro. Gentilmente, pedi para que a garota fosse na frente enquanto eu fazia uma ligação importante.
 
_ Boa noite, senhor! Meu nome é Daniel. Estou vendendo...
_ Meu amigo, com licença, estou em uma ligação agora.
_ Pelo amor de Deus, eu estou passando por tantas necessidades.
_ Pelo amor de Deus? Desculpe, meu caro, não faço parte do povo Dele.
_ O quê? O senhor não acredita em Deus? Então como...
 
    Desliguei a chamada e desci do carro. Se esse sujeito quer conversar, eu tenho uma empolgante surpresa para ele.
 
_ Como eu o quê?
_ Como o senhor explica a minha libertação das drogas? Sozinho eu jamais conseguiria. Passei dez anos viciado principalmente em bebidas, trouxe muitos problemas para minha família e principalmente para minha mãe. Hoje ela dá glórias a Deus, pois pode dormir tranquila, sabendo que seu filho agora é uma nova criatura. O senhor deve ser inteligente, é rico e jovem, cheio de disposição. Você não acha que Deus tem um propósito na sua vida? Se esta conversa agora também faz parte dos planos de Deus para você?
 
    Às vezes eu me pergunto se Deus sente vergonha alheia da própria criação. Comecei um pequeno questionário para este filho de Deus deixar seu Criador orgulhoso.
 
_ Responda-me uma coisa, você acredita no poder infinito de Deus? Acredita que seu conhecimento é absoluto? Assim como ele está presente aqui, agora, do nosso lado neste estacionamento?
 
    O vendedor deixou seus produtos caírem para levantar as mãos aos céus. Até eu me assustei.
 
_ Acredito! Amém! Deus seja louvado! Obrigado, Senhor, por tocar no coração deste homem!
_ Calma, companheiro, alguém tocou no meu coração, mas com certeza não foi o seu Deus. Se você confirmou tudo que citei sobre Ele, responda-me outra coisa: Ele tinha o poder de livrá-lo a qualquer momento? Ou melhor, antes de você nascer, Ele já sabia do seu vício para poder evitá-lo?
_ Ah... Sim. Quero dizer, não entendi muito bem a pergunta.
_ Deus tem o poder de curar um viciado como você a qualquer momento, mas ele não o faz por algum propósito. Afinal, ser viciado não tem cura, certo?
 
    Daniel estava coçando a cabeça porque provavelmente não esperava ter uma conversa profunda.
 
_ E eu sei que proposito é esse! Ele me usou para glorificar o Seu nome, aleluia!
_ Antes de você nascer, Deus já sabia da sua queda no mundo das drogas. Como se a sua vida já estivesse traçada. E se você ainda nem nasceu, quem traçou este caminho pelo senhor? Quem foi o responsável por determinar esse destino tão terrível? De passar dez anos escravizado por uma substância que destruiu seu corpo e seus laços familiares?
_ Não estou entendendo...
_ O senhor sequer nasceu e já estava condenado a passar por isso tudo. Para glorificá-Lo, Ele o fez perder uma década da sua vida, arruinando seu corpo e fazendo-o magoar as pessoas mais importantes para você. E depois de dez anos, a sua recompensa por exaltar o nome Dele é vender DVDs piratas no estacionamento deste shopping.
 
    Gosto de silêncios constrangedores.
 
_ A... A minha recompensa é a salvação... Nada aqui neste mundo se compara ao que está no reino dos céus...
_ Já está salvo? É mesmo? Foi você que determinou isso antes do senhor nascer ou foi Ele? E se Deus quiser mais dez anos? Vinte? E se essa recaída começar agora?
 
    Destravei a porta do carro e peguei uma garrafa de uísque.
 
_ Desculpe-me senhor, tenho que ir... Não posso...
_ Calma, eu te pago para beber.
 
    Abri a garrafa e dei dois goles lentamente.
 
_ Ainda está gelada. Aqui, pegue, vou te dar isto se você der um gole. Diferente de Deus, eu te dou alguma coisa quando te peço para fazer algo por mim.
 
    Daniel pegou suas coisas no chão para ir embora.
 
_ Se o senhor não quiser, jogarei fora.
 
    Virei a garrafa e comecei a derramar o uísque.
 
_ NÃO! PELO AMOR DE DEUS!
 
    Ele veio correndo pegar a garrafa da minha mão e virou toda a bebida de uma vez. Esse cara fez jus aos dez anos de vício.
 
_ A parte onde você fica com o dinheiro é verdade, não estou brincando. Agora, só para refrescar sua memória, Daniel, a gente concluiu que Deus estaria aqui neste momento, do nosso lado. Pois é, se eu não O conhecesse também, diria que Ele está aqui rindo de você. O seu propósito, senhor, nada mais foi do que entreterimento divino. Assim como todos nós estamos aqui para divertir a sua divina graça.
_ Lúcifer? Você vem?
_ Já estou indo!
 
    Quando a minha acompanhante apareceu na porta e me chamou de Lúcifer, os olhos de Daniel se arregalaram.
 
_ Calma! É só um apelido carinhoso. Ou será que não?"

domingo, 23 de fevereiro de 2014

"A Neo-Inquisição e a Tecnologia

    Muitas pessoas são fascinadas pelo livro de Apocalipse, um livro cujo tema está completamente inscrito em várias metáforas e linguagens figuradas que tentam descrever o mundo no grande dia do Juízo Final. Contudo, se você prestar atenção, este livro tem outro objetivo curioso e de extrema importância: alertar e advertir a própria igreja de uma maneira bem direta.
    Já parou para pensar nisto? Se a bíblia é inspirada por Deus e Ele 'gastou' o último livro para criticar o seu povo, então o assunto com certeza tem urgência. Não que a bíblia como um todo já não sirva para esta crítica, mas o livro de Apocalipse é especial. O principal problema das igrejas antigas quanto modernas são simplesmente o fato de elas serem igrejas, ou seja, o maior inimigo do povo de Deus hoje é ele mesmo. Tenho experiência para afirmar isto porque já cacei pessoalmente a fé de muitos 'irmãos em Cristo', para manter a prosperidade dos negócios e a segurança de nossa seita. Caçar a fé?
   Sim, tal como a igreja católica torturou e queimou milhares de pessoas para garantir a estabilidade e o futuro de sua religião, eu torturei e queimei centenas de evangélicos de outras denominações. Claro que torturar e queimar, da minha parte, estão no sentido figurado. E assim, isto se encaixa perfeitamente no objetivo de Apocalipse, pois atualmente existe uma grande farsa se titulando Reino de Deus aqui na terra, onde a igreja despreparada sucumbirá, enquanto seus próprios companheiros na fé assistem este espetáculo de camarote.
    Você já viu alguma igreja falir? Eu testemunhei várias, porém, houve uma em especial que fiz questão de provocar sua ruína diretamente, afinal, amigos não prejudicam os negócios dos outros. Tudo começou quando li uma estatística publicada no jornal há algum tempo. Resumindo a matéria, a população evangélica no país cresce de ano em ano (com grande peso nos neopentecostais) de maneira assustadoramente lucrativa, já que segundo estas pesquisas, na faixa de 2045, metade da população será classificada como evangélica. Talvez as pessoas vejam esse dado como uma grande revolução religiosa nacional, todavia, eu particularmente vejo isso com consequências muito mais interessantes.
    Dizer que metade do povo de um país será evangélico é assumir um caos protestante iminente. Pense bem: se nos dias de hoje as igrejas lutam para dizer com quem está a verdade e preparam seus fiéis com estudos bíblicos para debates, apontando deliberadamente os 'defeitos' doutrinários de cada concorrente segundo a Palavra, imagine quando metade das pessoas desse lugar for evangélica. Não haverá mais espaço para a cordialidade cristã e o bem social, ambos serão crucificados como Jesus. E as consequências ainda não acabaram. O que nos espera depois de 2045? Eu não duvido de uma possível segregação social dependendo de sua denominação e também não duvido que a minoria ateia seja perseguida ferrenhamente assim como os cristãos já foram um dia.
    Eu estava prestes a me arrumar para um culto até então normal de domingo, quando recebo uma mensagem interessante de um dos meus secretários pelo celular cujo assunto se trata de visitas, visitas importantes. Outro filho de um pastor de outra denominação estava prestes a chegar à nossa igreja. Fiquei curioso para saber se esse jovem anda realmente pelos caminhos do Senhor, ou se é apenas mais um joio convivendo com trigos. Porque se fosse alguém pertencente a mesma igreja que a minha, com certeza eu saberia em minutos se ele faz parte de alguma seita ou não.
    No estacionamento, logo vi meu ilustre convidado chegar, pois observei um carro estacionado que nenhum 'irmão' teria poder aquisitivo para comprá-lo, a não ser que fosse um pastor ou filho de um. Ao encontrar meus dois fiéis servos na recepção, eles me indicaram qual era o jovem e que por sinal estava acompanhado de sua bela namorada.

_ Senhor, o nome dele é Nolan. Ele deseja conversar logo após o culto no gabinete pastoral. Como responderemos?

    Cara de atitude, nem precisei ir até ele.

_ Podem confirmar. Mas, no final do culto, peçam à Rute para conduzir nossa visita a um lugar mais reservado, e que consiga alguma demonstração de 'carinho' da parte dele. Filmem e fotografem cada momento.
_ Entendido.

    Ah, minha doce Rute! A garota de maior influência em minha seita, uma das poucas pessoas que me fariam perder um debate doutrinário. Enfim, apertei a mão de alguns congregantes e sentei nos últimos bancos da igreja para assistir melhor o comportamento de meu convidado, para tirar algumas conclusões. Logo percebi o desdém em tentar disfarçar a sua falta de crença. Nas orações ele usava sorrindo seu tablet e durante a pregação bocejava como se estivesse assistindo algo que jamais fosse usar em sua vida, de fato não iria. Sua maior demonstração de participação no culto foi ao final, quando meu pai citou os nomes dos visitantes e os mesmos se colocaram de pé para que se apresentassem.

_ Boa noite, sr. Nolan! Por favor, o gabinete pastoral fica naquela direção. Nosso líder, Lúcifer, o aguarda.

    Meus dois secretários o abraçaram calorosamente e fizeram o sinal para Rute.

_ Com licença, querida, tenho assuntos a resolver.

    O casal se despediu dando um carinhoso beijo.

_ Tudo bem, vou dar uma volta.

    Todas as vezes após o culto de domingo, inicia-se uma pequena confraternização entre os membros com café e pequenos doces. Aproveitando esta oportunidade, Rute o abordou e conduziu sua vítima para perto do banheiro e por lá eles devem ter se entendido. Eu já estava no gabinete pastoral, usando um notebook conferindo os eventos que teríamos este ano em minha seita.

_ Com licença, posso entrar?
_ Por favor, Entrem. Nolan, sente-se. O que deseja?

    Ele se sentou e colocou os pés na mesa, cruzando os dedos atrás da cabeça.

_ Sua seita está ultrapassando os limites de sua denominação. Espero que o senhor... Lúcifer, não é? Que pseudônimo ridículo... Esteja ciente dessa situação e que tome as devidas providências. Não precisamos ser inimigos, correto?

    Apesar da indelicadeza, por um lado eu o entendo. Minha seita vem apresentando visitantes a cada mês e para manter isto obtendo lucro, preciso da contribuição financeira assídua de todos os membros. Se por acaso algum deles sair, matematicamente é uma quantia a menos no orçamento, falando em termos de influência, teremos duas opções: ou este antigo membro não precisa mais ir obrigado à igreja (o que raramente acontece), ou encontrou uma seita 'melhor' para ficar.

_ Com certeza não precisamos! Também sinto muita impaciência e insatisfação em seu comportamento, meu caro. Logo, estou vendo na minha agenda pessoal que teremos uma reunião de minha seita hoje, aqui no templo, às onze. Como prova de minhas desculpas sinceras, deixarei com você esta cópia da chave da igreja, para que o senhor mesmo dê as boas vindas aos meus membros. O que acha?

    Como esperado, ele se assustou um pouco com a ideia. Ficou tão surpreso que passou a se sentar direito na cadeira.

_ Bem, é... Sinceramente... Não esperava tamanha hospitalidade, estou realmente surpreso. Mas aceitarei a proposta. Às onze estarei aqui com minha namorada.

    Abri uma gaveta, peguei um molho de chaves e indiquei qual era. Não haverá reunião alguma hoje, só amanhã.

_ Até mais tarde, Nolan. Conversaremos num ambiente mais agradável com música, bebidas e mulheres para descontrair. Por favor, acompanhem-no até a saída.

    Ele se levantou e saiu sorrindo... Ah... Um leve sorriso... Eu vi que na gola da camisa social dele havia uma pequena abotoadeira com um símbolo marcante, específico de uma determinada denominação. E pelo seu patamar financeiro, deve pertencer à igreja central desta doutrina. Já temos um lugar para investigar.

_ Senhor, Nolan e sua namorada já foram embora. Belial ainda está cuidando dos preparativos para amanhã à noite. Deseja algo mais?

    Disse Asmodeus.

_ Sim, vamos imediatamente nos encontrar com ele e pegar um dos carros da seita, vamos andar pela cidade.

    Ao nos encontrarmos, fomos até o subsolo da igreja onde temos uma garagem com quatro carros, um para cada. Particularmente gosto do meu, um modesto McLaren X-1 preto.

_ Pesquisem por esta denominação aqui na cidade, procurem o endereço de onde fica a igreja principal.

    Passeando pela iluminada e badalada cidade num domingo à noite, cheia de letreiros coloridos e ofuscantes de boates baratas, meus secretários sugavam o máximo possível de informações, em sites de busca, blogs e perfis pessoais de pessoas próximas, procurando cada detalhe.

_ Senhor, na igreja principal aqui da cidade dessa denominação, o pastor se chama George Roust. No seu perfil do Facebook, indica nosso nobre visitante Nolan como seu filho. Em sua página também segue o endereço e um link para o site da igreja.
_ Então vamos até o endereço.

    Ah, internet, um dos maiores pecados da humanidade no século XXI. Para surpresa de meus companheiros, a igreja estava decrepita, urgentemente necessitando de reformas. Para mim, era só mais uma prova do que eu pensava a respeito de Nolan.
    O principal local de uma seita, seja de que denominação for, vai acabar sendo a própria igreja. É o local mais acessível, é de graça e estará acima de qualquer suspeita. E como podemos ver, o principal local da seita de nosso querido visitante está aos pedaços.

_ Já precisei ver o que queria pessoal, vamos voltar à igreja. Peguem suas armas.

    Eu já estava terminando de criar os meios de tortura fisica e psicológica que usaria em Nolan, quando sou realmente surpreendido no estacionamento de nosso aconchegante templo.

_ Saiam do carro! AGORA!

    A namorada dele estava no início da escadaria apontando uma pistola Taurus contra o carro. Antes de descer, avisei para meus amigos não reagirem a esta atitude estúpida.

_ Boa noite! Se eu não me engano, seu namorado deve estar no meu computador procurando por dados bancários. Não preciso ser onisciente para saber disso.

    Era nítida sua expressão de espanto.

_ Então eu me pergunto: por que uma garota está com um cara que a faz segurar a pistola, arriscando a vida dela para conseguir alguns trocados que não vão resolver o problema?
_ Que eu saiba você não tem só alguns trocados.
_ E realmente não tenho, quem tem é a igreja. Na minha conta tem as sobras da minha humilde mesada que com certeza não irão cobrir o abismo feito pelo seu namorado nas economias de sua seita. Naquele notebook estão apenas os meus dados bancários.

    Ela se aproximou e encostou a arma no meu queixo.

_ Então você vai subir agora e passar os dados da conta da igreja.

    Dizem que a maior arma do Diabo é fazer as pessoas acreditarem na sua não existência, mas eu discordo. Para mim, a maior arma do Anjo Caído sempre será o poder da insinuação, aquelas palavras suaves no ouvido que provocam as reações mais destrutivas possíveis. Se serve de exemplo, a humanindade está desse jeito hoje simplesmente porque a serpente insinuou a Adão e Eva que um fruto os tornaria iguais a Deus.

_ Você ainda não entendeu minha jovem? Ele tem outra.
_ Como é que é? EU NÃO TENHO MEDO DE PUXAR ESSE MALDITO GATILHO!

    Levantei as mãos vagarosamente e mostrei a ela que queria puxar algo de dentro do meu blazer.

_ Assim como ele não tem medo de te trair.

    Revelar à ela as fotos forjadas de Nolan com Rute pelo meu celular foi a mesma coisa de atirar a queima roupa com uma espingarda 12mm.

_ Essa garota com ele na foto pertence a minha seita. E ela falou que seu amado príncipe pretende pegar o dinheiro esta noite e fugir para algum lugar bem longe. Obviamente não é você quem vai fugir com ele. Por que não vamos até lá em cima? Estou louco para ver você atirar nele.

    Por um instante o olhar dela estava direcionado para o horizonte, como se várias lembranças boas em sua mente se tornassem um veneno doloroso e paralisante. Aproveitando este momento, levantei a mão dela que estava com a arma e me aproximei. Fui chegando perto até dar um beijo nela bem devagar. Ela retribuiu o beijo.

_ Uma garota com tanta coragem é muito bem vinda em minha seita. Você não precisa ficar sozinha, afinal, agora temos um inimigo em comum.

    Ela abaixou a cabeça e de repente começou a subir as escadas como se estivese prestes a matar alguém.

_ Sigam-me e chamem a polícia.

    Pedi para meus secretários me darem cobertura enquanto tento impedir uma garota traída de matar seu ex-namorado. Tarefa difícil, principalmente quando ela tem uma arma.

_ Espere! Agora não!

    Ela já estava bem perto da porta do gabinete pastoral.

_ NINGUÉM VAI ME IMPEDIR DE MATAR AQUELE CARA!
_ Eu vou, pois tenho uma ideia melhor.

    Coloquei as mãos para cima e fui caminhando até ela.

_ Por que você não assiste sentada na minha poltrona um pouco de violência gratuita? Tipo, eu e meus colegas espancando aquele imbecil? Mas antes, deixe-me fazer um pouco da minha especialidade: terror psicológico. Espere aqui fora, quando eu terminar, você pode atirar nele.

    Ela abaixou a arma.

_ Atirar naquele miserável realmente seria muito fácil para ele. Tenho que admitir, você é um gênio.
_ Podem vir rapazes, vamos nos divertir.

    A garota se afastou do gabinete e se sentou em um dos bancos enquanto eu fechava a porta.

_ Boa noite, Nolan.

   Nós três estávamos com ele na mira.

_ Antes de mais nada, eu gostaria de fazer uma pergunta ao meu convidado especial. Hoje você disse que a minha seita estava indo além das fronteiras da denominação. O senhor poderia ser mais específico?

    Ele também tinha uma arma, porém, estava congelado com a situação e mal conseguia tirar a mão do teclado do notebook.

_ NÃO ATIRE! Eu... Fa... Fa-falo no sentindo econômico. Venho perdendo membros mensalmente para várias seitas, mas para sua principalmente...
_ Ainda bem, achei que você procurava vingança por causa disso.

    Joguei meu celular no colo dele. Quando consegui um beijo de sua namorada, eu ainda segurava o celular com a mão. Não podia perder a chance de tirar uma foto de um momento tão romântico.

_ Não... Não pode ser... Você... SEU DESGRAÇADO!

    Nossa, que rapaz apaixonado. É preciso muito amor para avançar contra três homens mirando Desert Eagles em você. Não que eu seja um mestre das artes marciais, porém consegui imobilizá-lo para poder fazer algo muito mais divertido do que atirar nele: insinuar alguma coisa.

_ Que patético! Aposto que você não tem a mínima ideia de como atirar em alguém. E já que o senhor não vai sair daqui com nenhum centavo, gostaria de tentar recuperar pelo ou menos a sua honra? Reflita comigo: se você tem perdido tantos membros assim, com certeza alguém de dentro da sua seita vem convencendo outros integrantes a procurarem outra. A vadia está sentada em um banco aqui na igreja. Ninguém vai poder ouvir os gritos dela. Nem mesmo os tiros.
_ TIRE AS AS MÃOS DE MIM!
_ Recomendo que você já apareça atirando.
_ AGORA!
_ Vamos considerar isto um sim. Cavalheiros, abram a porta para a fera.

    Nolan saiu correndo para o salão principal. Ouvindo o barulho de passos se aproximando, a namorada dele se levantou. Com certeza foi uma das cenas mais perfeitas criadas por mim: namorados disparando um contra o outro só de terem se visto.
    Ele acertou na perna dela e ela no ombro dele. Ambos péssimos atiradores, incrível. Quando caíram no chão sentindo muita dor, eu coloquei um par de luvas e me aproximei, chutando a arma de cada um para longe.

_ Agora que vocês já discutiram a relação, preciso confessar uma coisa. A garota que está na foto com Nolan, fui eu quem a mandou tentar alguma coisa com ele, eles não se conheciam. Ela conseguiu no máximo roubar um beijo, mas ele a afastou e entrou no gabinete pastoral. Muito feio da sua parte, garota, ter desconfiado dele só por causa de uma foto. Já sua namorada não é uma traidora da sua seita, meu amigo, muito pelo contrário, naquela escadaria ela teria me matado ou morrido por você. Lindo, não?

    Os dois se olharam com o maior arrependimento do mundo, estavam chorando calados. Quando eles estenderam a mão para ficar de mãos dadas, eu pisei na mão de Nolan primeiro.

_ No inferno vocês não podem mais concertar as coisas, certo? Pois então, quero os dados da sua conta bancária e da sua seita.
_ MINHA MÃO! EU NÃO VOU PASSAR COISA ALGUMA! SAI DE CIMA DA MINHA MÃO!

    Eu peguei a arma dele e me aproximei sorrindo de sua namorada.

_ Eu não tenho medo de puxar esse maldito gatilho! Alguém disse isso para mim. E a propósito, a arma nem é minha mesmo.
_ Sr. Lúcifer? Perdoe o meu atraso.

    Era a polícia, o oficial Preston já é meu conhecido desde o começo de nossa seita. Lógico que uma quantia gorda é necessária para mantê-lo tão submisso.

_ GRAÇAS A DEUS! A POLÍCIA! ESSE CARA É UM PSICOPATA! TIREM A MINHA NAMORADA DAQUI, LEVEM-NA PARA O HOSPITAL! PELO AMOR DE DEUS!

    Preston e eu nos olhamos. Quase choramos de rir.

_ Olhe, meu bom cidadão, este psicopata me paga muito bem para cuidar da segurança dele. Então, já que o senhor está armado e baleado na igreja dele, será encaminhado para um hospital e logo em seguida para a delegacia e lá prestará depoimento. Na verdade, você já vai apanhar aqui e vamos jogá-lo numa cela cheia companhias agradáveis.
_ Preston, você tem sido um ótimo policial. Como agradecimento, esse sujeito deve ter alguns dados bancários dele na carteira. Pode ficar com tudo. Considere isso um bônus, seus honorários normais não serão alterados.
_ Fico feliz em receber uma ligação sua, sr. Lúcifer, passar bem. Rapazes, tirem esse idiota daqui.
_ Antes de levá-lo, estou devendo um pouco de violência gratuita a alguém.
_ NÃO! NÃO FAÇA NADA COM ELE!
_ Não consigo ouvir você com seu namorado gritando!

    Eu e meus secretários estávamos chutando todas as partes do corpo de Nolan, enquanto os policiais agitavam a pancadaria.

_ Nolan, você pode até achar o meu pseudônimo ridículo, mas eu o tenho por um bom motivo. Podem levá-lo.

    Os homens de Preston se aproximaram e o levaram inconsciente para o carro da polícia.

_ Você é um monstro...

    A namorada dele cuspiu no meu pé.

_ Então vocês procuram a minha igreja para levar tudo que é meu e eu sou o monstro? Diga-se de passagem, eu poderia morrer nesse processo e o casal da santidade não daria a mínima. Faça-me o favor de engolir a sua saliva nojenta!

   Chutei a boca dela com pé que ela havia cuspido. Ela desmaiou.

_ Tirem ela daqui. Até mais, Preston.

    Quando a polícia finalmente saiu com os dois presos, pude apreciar os estragos causados por essa "festinha".

_ Bem, rapazes, limpem essa bagunça e me liguem se precisarem de algo. Não se preocupem, neste mês todos receberão dobrado. Boa noite.
_ Boa noite, Mestre..."

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"Conhecimento é Poder


    Eu sempre ouvi nos colégios e das pessoas de idade mais avançada que o conhecimento é a maior riqueza do ser humano, como por exemplo, para minha família, seria ter o conhecimento da existência de Deus. Infelizmente, ao refletir sobre isto, eu estava de terno em um transporte coletivo, aproximando-se das dez horas da noite após um culto normal de domingo.
    Não sei quanto as outras pessoas, mas gosto apenas de sentar com a janela ao lado, sendo esta uma das vantagens de se pegar um ônibus no domingo: mais opções para se sentar. E se há algo que misteriosamente me faça pensar em milhares de coisas e refletir sobre elas é a janela de algum transporte, seja avião, carro ou no caso, um ônibus. Olhando as ruas mais ou menos iluminadas passarem, comecei a concluir que as escolas, assim como as pessoas mais adultas, não mencionaram um pequeno detalhe, na verdade, esqueceram de associar uma afirmação a uma tendência.
    'O poder corrompe; e o poder total corrompe totalmente'. Esta é a peça-chave do meu pensamento, pois se me disseram que conhecimento é poder, então no fim das contas o conhecimento para mim nada mais será que um instrumento de corrupção. Alguém pode me citar a existência de grandes e bons homens históricos, super inteligentes e de grande contribuição social, mas além de ainda não ter encerrado meus motivos, deixei claro que isto é apenas uma teoria sobre um comportamento humano. Quando falo conhecimento, está de uma maneira muito ampla, todavia, se eu disser que há vários tipos de conhecimento e consequentemente, vários tipos de poder e maneiras de usá-los, então talvez você entenda melhor o que quero dizer.
    Ora, o homem é mal por natureza, tendendo a corromper aquilo que o cerca. Então quanto mais ele conhece algo, mais ele usará este conhecimento para o mal, logo, corrompendo-se por conhecer demais. Se não usa com maus intuitos, usa visando seu benefício próprio que provavelmente será o prejuízo de outros. De qualquer maneira, alguém sairá perdendo.
    Enquanto eu filosofava neste triângulo equilátero formado por conhecimento, poder e corrupção, quatro indivíduos muito suspeitos até para um cego subiram pela porta traseira do transporte. Estavam mal vestidos, nitidamente algumas noites sem dormir e sob efeito de drogas, tramando algo nada honesto. Antes que um deles fizesse alguma coisa, mandei uma mensagem para meus secretários dizendo que havia sido roubado, e que viessem a minha procura usando nossa roupa que usamos nas reuniões de nossa seita. E quando me encontrassem, poderiam se divertir junto comigo, obedecendo os meus sinais.

_ Todo mundo quietinho, não quero ver herói por aqui, entenderam? Eu MATO! Aqueles dois vão passar recolhendo tudo e não quero ver conversa! CONTINUA DIRIGINDO, PALHAÇO! Parou por quê?!

    Dois deles foram à frente do ônibus, próximo ao cobrador, nos abordando com uma arma e uma bolsa velha, onde todos colocavam seus pertences, sendo agredidos verbalmente e fisicamente; inclusive, mulheres e pessoas de idade avançada. Um ficou mais ao fundo para olhar ao redor do ônibus.
    Quando encostaram a bolsa no meu braço, tive a audácia de olhar o rosto de um deles. Pois, coincidentemente eu tinha a impressão de já ter visto o rapaz que aparentava ser o "líder", o que falou primeiro.

_ Ficou maluco? Não olha pra mim, imbecil!
_ Por favor! Chega de violência!

    Logicamente tomei um bom soco na boca, entregando o celular e a carteira a muito contragosto, com uma senhora bastante apavorada ao meu lado. No entanto, este soco, apesar de poder sentir um filete de sangue escorrendo do canto de minha boca, valeu muito a pena. Felizmente, eu sabia exatamente quem eram dois desses quatro marginais.

_ Cai fora! Vai! Já levamos tudo. VAI!

    Depois que todos os passageiros colocaram algo na bolsa, os quatro correram para o fundo do ônibus e chutaram com força a porta para sair. Um grande clima de tensão que estava no ar se dissipava lentamente. Mas, quando o ônibus estava dando a partida para continuar, resolvi tomar de volta o que é meu. Na verdade, resolvi dar uma pequena lição sobre conhecimento àqueles nojentos.

_ Motorista!

    Bati na porta de trás chamando por ele.

_ Quer abusar da sorte, rapaz?!
_ É só abrir.

    Sem questionar e ainda assustado, ele abriu e finalmente pude descer. O ônibus saiu o mais rápido possível enquanto eu olhava ao redor para ver se encontrava meu trunfo.

_ Eu sei que não cabe na sua bolsa, no entanto esqueci de entregar meu terno! Ele é italiano!

    Eu estava em uma esquina, próximo a um beco bastante escuro. Entrei nesse beco e esperei. A única iluminação descente neste local era quando carros passavam com os faróis acesos, fora isto apenas a lua e a luz muito fraca do poste. Os nobres rapazes ouviram minha provocação e se dirigiram gentilmente até mim.

_ Acha que vai falar de Deus pra gente? Pastor imundo!

    O jovem que me xingou era um dos que eu conhecia. Este delinquente é o filho mais velho de uma pobre senhora evangélica, viúva e que trabalha como garçonete. Sua renda mensal é baixíssima, obrigando seus filhos a estudarem em uma escola pública. Não que isto seja sinônimo de uma péssima educação, mas com certeza nos dias de hoje também não ajuda. Ela se converteu na minha igreja, faz aproximadamente um mês, mas atualmente congrega em outra igreja de mesma denominação, muito próxima a sua residência. Quando há um visitante no templo, os recepcionistas anotam seus dados básicos e sempre há muita 'festa' e comemoração. Mas, eu foquei principalmente a parte do desabafo.
    Ela contou aos prantos que não podia estar presente na vida de seus dois filhos, caso contrário os três morreriam de fome. Situação cujo subterfúgio é facilmente ligado a Deus. A senhora continuou a história focando seu filho mais velho, dizendo que estava muito envolvido com pessoas erradas e fazendo coisas erradas, levando seu irmão mais novo para o mesmo caminho. E quando ele, o mais velho, soube da parte em que sua mãe oferecia regularmente o dízimo, foi o estopim para uma revolta e uma inimizade ferrenha explodirem na consciência do garoto contra a 'religião'.
    O jovem se indignava em como as pessoas doavam aquilo que precisavam para a igreja. Foi então num belo domingo em que ele, junto com seu irmão pequeno que estava chorando, entraram com tudo no salão do templo e retiraram sua própria mãe à força do local. Eu apreciei esta vergonha e até hoje nunca esqueci, afinal, não se sabe quando vamos precisar de alguma informação, não é?

_ Que tal a gente dar uma boa lição nesse ladrão idiota? Tirem toda a roupa dele!

    Quando os outros se aproximaram sorrindo e comentando quem faria o quê (diga-se de passagem, algo que envolvia um grande constrangimento sexual), eu abaixei a cabeça e comecei o que realmente vim fazer...

_ Sua mãe sabe o que você anda fazendo, Pequeno Príncipe?

    Engraçado, todos pararam e fecharam seus olhares insignificantes em mim.

_ Vocês acertaram o fato de eu ser pastor, mas estão muito enganados se pensam que sirvo a Deus.

    No bolso do terno, eu sempre tenho guardado um bloco de anotações disfarçado de "mini" Novo Testamento. Este era recém adquirido e estava totalmente em branco.

_ Diga-me, Pequeno Príncipe, você aprendeu alguma coisa sobre a bíblia? Sua mãe se esforçou tanto...

    Tal informação é de importância fundamental, pois eu nada faria se não soubesse desse detalhe. Este pseudônimo faz referência ao livro original, sendo esse o apelido do filho mais novo daquela pobre mãe. Ela dizia que só o chamava assim quando estava em particular com ele, por ser o único livro que esse delinquente chegou a ler. E claro, que por ser o mais novo, tem todo um carinho especial.

_ Que droga essa... Quem é esse cara, Josh?

    Esse é o nome do nosso ilustre filho mais velho, que para a minha sorte, descobri agora. O nome do caçula sem personalidade é Lews. Os quatro estavam completamente parados na minha frente, entreolhando-se algumas vezes. Então, comecei a me aproximar com passos pequenos, aproveitando os segundos de 'escuridão' sem os faróis dos carros para tirar meu Novo Testamento do bolso.


_ 'Mas eu vos digo que toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de contar no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado'. Será que as suas palavras naquele ônibus vão justificar você, Josh? Ou irão condenar?

    Eu abri o livro e fingi estar lendo, afinal, tenho vários versículos decorados. Após 'ler', joguei levemente meu Novo Testamento para que Josh o segurasse.

_ O que.. O que isso significa...?

    Com as mãos trêmulas, ele segurava sua arma e a 'bíblia'. Ao folhear por completo e ver que tudo estava em branco, seu desespero aumentava cada vez mais rápido.

_ O que foi, sr. Josh Mills? Não consegue ler o que está escrito?

    Mills é o sobrenome do pai deles.

_ Como.. Como você sabe tanto sobre mim...?! ELA ESTÁ EM BRANCO, NÃO ME ENROLE!
_ Por muito tempo meu mestre está olhando o que você vem fazendo, Josh.

    Um de seus compassas tomou o Novo Testamento da mão de Josh e apontou sua arma para mim.

_ Leia o que está escrito aqui! Leia!

    Ele abriu aleatoriamente o livro mais ou menos perto do começo. Fiz questão de guiar minha 'leitura' deslizando o dedo indicador como se estivesse seguindo uma linha.

_ 'Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas o que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus'. Vocês quatro não só estão inclinados na carne, vocês MERGULHARAM NELA! Vocês são inimigos declarados de Deus, e o final da estrada de todo aquele que está na carne, meus amigos, É A MORTE!

_ Meu Deus... Por que eu não consigo ler...?! Isso é impossível!
_ Eu não quero terminar no inferno.. O que você obrigou a gente a fazer, Josh! Ninguém aqui consegue ler essa porcaria! VOCÊ CONDENOU TODO MUNDO, JOSH!

    Lews apontava a arma para seu irmão. Brincadeira de família nem sempre é saudável.

_ Abaixe isso! Ficou maluco?!

    Ah, como eu me divirto. Manipular a mente de viciados morrendo de fome, deixando-os loucos. Não tem celular ou relógio que paguem.

_ Lews, meu mestre deseja fazer um trato. Está interessado?
_ QUE CONVERSA É ESSA? EU NÃO QUERO CONVERSA COM O DIABO! ABAIXA ESSA MÃO OU EU ATIRO EM VOCÊ, MISERÁVEL!
_ MEU DEUS, NÃO! O QUE É... ME SOLTEM! SOLTEM! NÃO! DEUS!

    Óbvio que meus grandes amigos Asmodeus e Belial já haviam chegado. Na verdade, eles estavam na esquina desde que comecei a ler. Sorrateiramente eles se aproximavam até uma distância ideal. Quando eu estendi a mão para um dos que não fazia parte da família dos dois irmãos, meus secretários entenderam o sinal por ouvirem nossa conversa. E num instante de sombra o marginal sumiu junto com um grito de desespero, distanciando-se cada vez mais.

_ Suas resistência é inútil, Pequeno Príncipe. Quanto mais você demorar, mais rápido vai chegar sua vez.

    O outro que também não fazia parte da família estava com sua bermuda um pouco molhada. E se ajoelhou deixando sua arma no chão.

_ O que aconteceu... Aonde ele foi..?
_ Meus caros, eu vou explicar o que aguarda os senhores. Vocês espancaram, humilharam e torturaram centenas de pessoas. Inclusive, iriam me estuprar. Quando eu os encontrar no outro lado, vou pisar nos seus músculos e ossos expostos, irei humilhar e estuprar brutalmente cada um de vocês quatro, não necessariamente nesta ordem. E as suas vítimas que não conseguiram perdoar os senhores e foram corroídos pelo ódio e pela vingança, também irão participar desse banquete, e já devem estar se deliciando com seu companheiro neste exato momento. E você é próximo. Levante-se.
_ NÃO! SOCORRO! ALGUÉM ME ESCUTE! ALGUÉM ME.. NÃO! NÃO! POR FAV..!

    Totalmente cambaleante e histérico, ele correu para esquina como se tivesse para acontecer com ele a pior coisa possível no mundo. Estendi a mão para cima e mais gritos de loucura ecoavam da esquina até o fim deste beco tão especial, cessando conforme eu abaixava a mão.

_ Eis o trato: atire em seu irmão e o mate, assim meu mestre dará a você mais um tempo. Quem sabe você não consegue se redimir?
_ LEWS? PARE! LE...

    E não é que o garoto atirou? Bem, foi de olhos fechados e atirando na perna, tremendo mais do que chorava. Mas já havia me surpreendido.

_ Se você o matar, Josh, poderá atirar nele por toda eternidade.
_ DESGRAÇADO!

    Não há nada de mais destrutivo do que semear a discórdia em algum lugar. Josh, deitado no chão, apontou a arma para seu irmão, tentando pressionar o ferimento em sua perna com a outra mão. Mas, antes que ele disparasse, Lews atirou no peito de Josh. Cumprindo o acordo.

_ Fiz... minha parte... Agora faça a sua... Por favor...

    Ele largou a arma no chão lentamente... Se ajoelhando para chorar, colocando as mãos em seus olhos.

_ Você está fora da lista, garoto, não se preocupe. Nada irá acontecer. No entanto, o que sua amada mãe vai pensar de você, Pequeno Príncipe? Ela só tem a você agora. Vai conseguir dizer a ela que para não entregar sua alma, precisou matar seu irmão? Ao meu ver só restou a ela um assassino.

    Ele vagarosamente engoliu o choro e pegou a arma de volta.

_ Diga a minha mãe que sentirei falta dela...

    Lews se matou com um tiro na cabeça. Poucos segundos depois, Belial e Asmodeus se aproximam.

_ O que fazemos com os que estão inconscientes?
_ Arraste-os até aqui, assim eles irão acordar lúcidos e ao lado de seus amigos mortos. Deixem que a falta de conhecimento os abrace também. Revistaram eles?
_ Sim, estamos levando apenas o dinheiro que havia com eles.
_ Ótimo, vão na frente, esperem só que eu dê o último adeus.

    Pude ouvir Josh agonizando no chão. Provavelmente ouviu minha conversa com meus secretários.

_ Primeiro: você não vai sobreviver, pois não chamarei socorro. Segundo: este Novo Testamento está em branco, apenas usei do seu cansaço, vício e falta de conhecimento bíblico para fazer tudo isto. Adeus.

    Ele não disse nada, simplesmente fechou os olhos e se entregou. Asmodeus e Belial já tinham trazido os outros e os largaram no chão.

_ Bem, o que querem fazer com o dinheiro extra?
_ Eu soube de uma nova boate que abriu esse mês. Está aberta de sexta a domingo. Querem ir?
_ Uma boa ideia.
_ O QUE A GENTE FEZ, CARA! O QUE A GENTE FEZ!

   Depois de darmos alguns passos em direção a uma praça onde estava nosso carro, ouvimos mais disparos vindos do beco. Sem dúvidas, o conhecimento é a maior riqueza que o ser humano pode ter..."

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

"Pague o Preço

    Os sentimentos de maneira geral têm uma característica fascinante: a capacidade de se segurarem ou mesmo de se 'agarrarem' no nosso interior de uma maneira única, a qual apenas os sentimentos podem fazer. É algo realmente impressionante quando o que sentimos chega a ser tão grande que me obriga a perguntar: quem foi o autor dos sentimentos? Quem foi o ser superior o qual criou algo tão poderoso? Capaz de atravessar o tempo, superar a morte e realizar tantas outras coisas impossíveis?
     Bem, no momento queria me deter no sentimento que em minha opinião é o mais revoltante de todos: o amor. Sua vasta compreensão não permite a um pobre mortal abranger todas as suas faces, mas, focarei em uma das que mais me chama atenção. Se o amor se apega de tal forma no nível mais profundo de nosso ser, o que pode acontecer se houver a necessidade deste amor ser retirado? Sim, muitos príncipes e muitas donzelas no passado e inúmeras pessoas no presente enxergaram apenas a triste opção de tirar a própria vida para poder arrancar um amor de suas 'almas'. E há quem não acredite na força do amor.
    É algo tão doce e ao mesmo tempo amargo, saber que todos estão aptos para sentir algo, seja variando do extremo ódio ao puro amor, porém, ser abalizado para deixar de sentir determinado sentimento pode ser a tarefa mais árdua a ser enfrentada por um ser humano. Pois assim como houve os que fracassaram nessa missão, também existem os que 'conseguiram'. Mas, conhece aquela frase que diz 'tudo tem um preço?', pois bem, está aí uma verdade que podemos chamar de universal. Os que conseguiram tirar um amor de verdade de suas vidas, provavelmente pagaram o alto preço que o amor exige para ser removido: a felicidade.
    A partir daí podemos criar um ciclo vicioso e viver entre a cruz e a espada. Qual o ser humano que pode viver sem amar? Aquele que não quer ser feliz. Então há alguém que não queira ser feliz? Aquele que não deseja correr o risco de sentir a dor de apagar um amor - E eu sou esse alguém - ... Porém, o maior problema é que somos realmente viciados em sentimentos e não percebemos isto.  Interessante, não? Para os humanos é impossível sentir absolutamente nada, logo, assim como um viciado em drogas pesadas, procuramos involuntariamente sentir algo por alguém para saciarmos este vício que todos nós temos, seja do amor por um pai, uma amizade por um amigo de infância ou uma raiva do seu chefe no trabalho.
    Porém, para aqueles que decidiram 'pagar' para não mais amarem, ocorrerá um sério agravante sobre essa decisão: ter de pagar o maldito preço da felicidade todos os dias. Por quê? Porque todos os dias vamos querer amar? Não exatamente. Paga-se todo dia porque a partir do momento em que você achar que não vai mais amar, o amor com certeza vai te pegar de surpresa. Então se faz a pergunta: será mesmo que vale a pena pagar com a felicidade para deixar de amar? Qual seria a graça da vida sem riscos? Inclusive, o risco de amar e se decepcionar? Bem, é uma decisão pessoal. Há quem diga que sou covarde por fazer isso, mas eu refuto este argumento ridículo, pois se teve alguém que foi covarde comigo foi o amor; porque quando mais precisei dele, ele deu às costas a mim.
    Você pode me dizer que estou passando a culpa de terceiros para o coitado do amor, mas não é verdade. Sabe por quê? Quando uma pessoa pede para se casar com alguém, por exemplo, muito provavelmente dentro deste indivíduo existe um sentimento que chamamos de amor. Logo, o amor é o que nos move, perdoamos, mudamos e fazemos as coisas por amor e etc. Olhando por este lado, esse maldito sentimento é na verdade quem está por trás de tudo, manipulando a quem o aceita como se fossem marionetes condenadas a sofrerem quando ele for embora; então por que eu não vou por a culpa nele? É lógico que vou. E daí que ele tenha levado minha felicidade junto com ele? Ao menos nada mais ele poderá tirar de mim, muito menos devo algo a ele.
    Pense comigo, se com o término daquele seu romance de férias, aquele "sem compromisso", você chorou e se deprimiu ao ponto de não querer sair, não querer ficar no computador, não querer fazer absolutamente qualquer coisa além de chorar deitado na cama, sentindo aquela dor no peito, imagine quando você se deparar com um amor verdadeiro? Aí sim você vai saber o que é dor; e o pior, não tem analgésico para isso, nem sequer um único remédio que ajude.
    Seja sincero, que tipo de pessoa cobraria o preço da sua felicidade para sair da sua vida? É este o tipo de indivíduo que o amor representa. Eu sou inimigo do amor e aquele que foi uma trágica vítima sua, por favor, junte-se a mim. Aqui estou, com todas as minhas forças eu tirei o amor de dentro de mim e ainda estou vivo, então, você também pode; é só querer. Para aqueles que amam, por favor, não pensem que sou inimigo de vocês, sou inimigo do que está correndo em suas veias, que faz pulsar seu coração, e não estou falando de sangue, estou falando desse sentimento tão revoltante chamado amor."

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

"Não Vale a Pena

Deus tem propósito,
Para toda criatura,
Mas eu tenho um plano sórdido,
Que inclusive está nas sagradas escrituras;

Pretendo convencer,
O não convertido,
Que não vale a pena crer,
E muito menos ser perseguido;

E para aquele que já se diz servo,
Mostrarei o reflexo de suas obras,
E quando ele ver que nunca fez o que é certo,
Perguntarei: 'por que tu choras?';

Vem, o mundo chama teu nome,
Como se já não bastasse a carne,
É preciso o espírito também sentir fome?
Então pense e pare;

Por que tanta preocupação de ir à igreja?
Se você for por obrigação será vomitado da boca Deus,
É muito simples, veja:
Você nunca será um dos Seus;

Então o mundo te espera,
E eu sei que já consegui,
Pois não precisa ter pressa,
No fundo você sempre esteve aqui."