Um filho rico de um rico pastor, escrevendo sobre sua vida dentro e fora da igreja; em uma sutil forma de poesia.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

"Conhecimento é Poder


    Eu sempre ouvi nos colégios e das pessoas de idade mais avançada que o conhecimento é a maior riqueza do ser humano, como por exemplo, para minha família, seria ter o conhecimento da existência de Deus. Infelizmente, ao refletir sobre isto, eu estava de terno em um transporte coletivo, aproximando-se das dez horas da noite após um culto normal de domingo.
    Não sei quanto as outras pessoas, mas gosto apenas de sentar com a janela ao lado, sendo esta uma das vantagens de se pegar um ônibus no domingo: mais opções para se sentar. E se há algo que misteriosamente me faça pensar em milhares de coisas e refletir sobre elas é a janela de algum transporte, seja avião, carro ou no caso, um ônibus. Olhando as ruas mais ou menos iluminadas passarem, comecei a concluir que as escolas, assim como as pessoas mais adultas, não mencionaram um pequeno detalhe, na verdade, esqueceram de associar uma afirmação a uma tendência.
    'O poder corrompe; e o poder total corrompe totalmente'. Esta é a peça-chave do meu pensamento, pois se me disseram que conhecimento é poder, então no fim das contas o conhecimento para mim nada mais será que um instrumento de corrupção. Alguém pode me citar a existência de grandes e bons homens históricos, super inteligentes e de grande contribuição social, mas além de ainda não ter encerrado meus motivos, deixei claro que isto é apenas uma teoria sobre um comportamento humano. Quando falo conhecimento, está de uma maneira muito ampla, todavia, se eu disser que há vários tipos de conhecimento e consequentemente, vários tipos de poder e maneiras de usá-los, então talvez você entenda melhor o que quero dizer.
    Ora, o homem é mal por natureza, tendendo a corromper aquilo que o cerca. Então quanto mais ele conhece algo, mais ele usará este conhecimento para o mal, logo, corrompendo-se por conhecer demais. Se não usa com maus intuitos, usa visando seu benefício próprio que provavelmente será o prejuízo de outros. De qualquer maneira, alguém sairá perdendo.
    Enquanto eu filosofava neste triângulo equilátero formado por conhecimento, poder e corrupção, quatro indivíduos muito suspeitos até para um cego subiram pela porta traseira do transporte. Estavam mal vestidos, nitidamente algumas noites sem dormir e sob efeito de drogas, tramando algo nada honesto. Antes que um deles fizesse alguma coisa, mandei uma mensagem para meus secretários dizendo que havia sido roubado, e que viessem a minha procura usando nossa roupa que usamos nas reuniões de nossa seita. E quando me encontrassem, poderiam se divertir junto comigo, obedecendo os meus sinais.

_ Todo mundo quietinho, não quero ver herói por aqui, entenderam? Eu MATO! Aqueles dois vão passar recolhendo tudo e não quero ver conversa! CONTINUA DIRIGINDO, PALHAÇO! Parou por quê?!

    Dois deles foram à frente do ônibus, próximo ao cobrador, nos abordando com uma arma e uma bolsa velha, onde todos colocavam seus pertences, sendo agredidos verbalmente e fisicamente; inclusive, mulheres e pessoas de idade avançada. Um ficou mais ao fundo para olhar ao redor do ônibus.
    Quando encostaram a bolsa no meu braço, tive a audácia de olhar o rosto de um deles. Pois, coincidentemente eu tinha a impressão de já ter visto o rapaz que aparentava ser o "líder", o que falou primeiro.

_ Ficou maluco? Não olha pra mim, imbecil!
_ Por favor! Chega de violência!

    Logicamente tomei um bom soco na boca, entregando o celular e a carteira a muito contragosto, com uma senhora bastante apavorada ao meu lado. No entanto, este soco, apesar de poder sentir um filete de sangue escorrendo do canto de minha boca, valeu muito a pena. Felizmente, eu sabia exatamente quem eram dois desses quatro marginais.

_ Cai fora! Vai! Já levamos tudo. VAI!

    Depois que todos os passageiros colocaram algo na bolsa, os quatro correram para o fundo do ônibus e chutaram com força a porta para sair. Um grande clima de tensão que estava no ar se dissipava lentamente. Mas, quando o ônibus estava dando a partida para continuar, resolvi tomar de volta o que é meu. Na verdade, resolvi dar uma pequena lição sobre conhecimento àqueles nojentos.

_ Motorista!

    Bati na porta de trás chamando por ele.

_ Quer abusar da sorte, rapaz?!
_ É só abrir.

    Sem questionar e ainda assustado, ele abriu e finalmente pude descer. O ônibus saiu o mais rápido possível enquanto eu olhava ao redor para ver se encontrava meu trunfo.

_ Eu sei que não cabe na sua bolsa, no entanto esqueci de entregar meu terno! Ele é italiano!

    Eu estava em uma esquina, próximo a um beco bastante escuro. Entrei nesse beco e esperei. A única iluminação descente neste local era quando carros passavam com os faróis acesos, fora isto apenas a lua e a luz muito fraca do poste. Os nobres rapazes ouviram minha provocação e se dirigiram gentilmente até mim.

_ Acha que vai falar de Deus pra gente? Pastor imundo!

    O jovem que me xingou era um dos que eu conhecia. Este delinquente é o filho mais velho de uma pobre senhora evangélica, viúva e que trabalha como garçonete. Sua renda mensal é baixíssima, obrigando seus filhos a estudarem em uma escola pública. Não que isto seja sinônimo de uma péssima educação, mas com certeza nos dias de hoje também não ajuda. Ela se converteu na minha igreja, faz aproximadamente um mês, mas atualmente congrega em outra igreja de mesma denominação, muito próxima a sua residência. Quando há um visitante no templo, os recepcionistas anotam seus dados básicos e sempre há muita 'festa' e comemoração. Mas, eu foquei principalmente a parte do desabafo.
    Ela contou aos prantos que não podia estar presente na vida de seus dois filhos, caso contrário os três morreriam de fome. Situação cujo subterfúgio é facilmente ligado a Deus. A senhora continuou a história focando seu filho mais velho, dizendo que estava muito envolvido com pessoas erradas e fazendo coisas erradas, levando seu irmão mais novo para o mesmo caminho. E quando ele, o mais velho, soube da parte em que sua mãe oferecia regularmente o dízimo, foi o estopim para uma revolta e uma inimizade ferrenha explodirem na consciência do garoto contra a 'religião'.
    O jovem se indignava em como as pessoas doavam aquilo que precisavam para a igreja. Foi então num belo domingo em que ele, junto com seu irmão pequeno que estava chorando, entraram com tudo no salão do templo e retiraram sua própria mãe à força do local. Eu apreciei esta vergonha e até hoje nunca esqueci, afinal, não se sabe quando vamos precisar de alguma informação, não é?

_ Que tal a gente dar uma boa lição nesse ladrão idiota? Tirem toda a roupa dele!

    Quando os outros se aproximaram sorrindo e comentando quem faria o quê (diga-se de passagem, algo que envolvia um grande constrangimento sexual), eu abaixei a cabeça e comecei o que realmente vim fazer...

_ Sua mãe sabe o que você anda fazendo, Pequeno Príncipe?

    Engraçado, todos pararam e fecharam seus olhares insignificantes em mim.

_ Vocês acertaram o fato de eu ser pastor, mas estão muito enganados se pensam que sirvo a Deus.

    No bolso do terno, eu sempre tenho guardado um bloco de anotações disfarçado de "mini" Novo Testamento. Este era recém adquirido e estava totalmente em branco.

_ Diga-me, Pequeno Príncipe, você aprendeu alguma coisa sobre a bíblia? Sua mãe se esforçou tanto...

    Tal informação é de importância fundamental, pois eu nada faria se não soubesse desse detalhe. Este pseudônimo faz referência ao livro original, sendo esse o apelido do filho mais novo daquela pobre mãe. Ela dizia que só o chamava assim quando estava em particular com ele, por ser o único livro que esse delinquente chegou a ler. E claro, que por ser o mais novo, tem todo um carinho especial.

_ Que droga essa... Quem é esse cara, Josh?

    Esse é o nome do nosso ilustre filho mais velho, que para a minha sorte, descobri agora. O nome do caçula sem personalidade é Lews. Os quatro estavam completamente parados na minha frente, entreolhando-se algumas vezes. Então, comecei a me aproximar com passos pequenos, aproveitando os segundos de 'escuridão' sem os faróis dos carros para tirar meu Novo Testamento do bolso.


_ 'Mas eu vos digo que toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de contar no dia do juízo. Porque por tuas palavras serás justificado, e por tuas palavras serás condenado'. Será que as suas palavras naquele ônibus vão justificar você, Josh? Ou irão condenar?

    Eu abri o livro e fingi estar lendo, afinal, tenho vários versículos decorados. Após 'ler', joguei levemente meu Novo Testamento para que Josh o segurasse.

_ O que.. O que isso significa...?

    Com as mãos trêmulas, ele segurava sua arma e a 'bíblia'. Ao folhear por completo e ver que tudo estava em branco, seu desespero aumentava cada vez mais rápido.

_ O que foi, sr. Josh Mills? Não consegue ler o que está escrito?

    Mills é o sobrenome do pai deles.

_ Como.. Como você sabe tanto sobre mim...?! ELA ESTÁ EM BRANCO, NÃO ME ENROLE!
_ Por muito tempo meu mestre está olhando o que você vem fazendo, Josh.

    Um de seus compassas tomou o Novo Testamento da mão de Josh e apontou sua arma para mim.

_ Leia o que está escrito aqui! Leia!

    Ele abriu aleatoriamente o livro mais ou menos perto do começo. Fiz questão de guiar minha 'leitura' deslizando o dedo indicador como se estivesse seguindo uma linha.

_ 'Pois os que são segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas o que são segundo o Espírito para as coisas do Espírito. Porque a inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os que estão na carne não podem agradar a Deus'. Vocês quatro não só estão inclinados na carne, vocês MERGULHARAM NELA! Vocês são inimigos declarados de Deus, e o final da estrada de todo aquele que está na carne, meus amigos, É A MORTE!

_ Meu Deus... Por que eu não consigo ler...?! Isso é impossível!
_ Eu não quero terminar no inferno.. O que você obrigou a gente a fazer, Josh! Ninguém aqui consegue ler essa porcaria! VOCÊ CONDENOU TODO MUNDO, JOSH!

    Lews apontava a arma para seu irmão. Brincadeira de família nem sempre é saudável.

_ Abaixe isso! Ficou maluco?!

    Ah, como eu me divirto. Manipular a mente de viciados morrendo de fome, deixando-os loucos. Não tem celular ou relógio que paguem.

_ Lews, meu mestre deseja fazer um trato. Está interessado?
_ QUE CONVERSA É ESSA? EU NÃO QUERO CONVERSA COM O DIABO! ABAIXA ESSA MÃO OU EU ATIRO EM VOCÊ, MISERÁVEL!
_ MEU DEUS, NÃO! O QUE É... ME SOLTEM! SOLTEM! NÃO! DEUS!

    Óbvio que meus grandes amigos Asmodeus e Belial já haviam chegado. Na verdade, eles estavam na esquina desde que comecei a ler. Sorrateiramente eles se aproximavam até uma distância ideal. Quando eu estendi a mão para um dos que não fazia parte da família dos dois irmãos, meus secretários entenderam o sinal por ouvirem nossa conversa. E num instante de sombra o marginal sumiu junto com um grito de desespero, distanciando-se cada vez mais.

_ Suas resistência é inútil, Pequeno Príncipe. Quanto mais você demorar, mais rápido vai chegar sua vez.

    O outro que também não fazia parte da família estava com sua bermuda um pouco molhada. E se ajoelhou deixando sua arma no chão.

_ O que aconteceu... Aonde ele foi..?
_ Meus caros, eu vou explicar o que aguarda os senhores. Vocês espancaram, humilharam e torturaram centenas de pessoas. Inclusive, iriam me estuprar. Quando eu os encontrar no outro lado, vou pisar nos seus músculos e ossos expostos, irei humilhar e estuprar brutalmente cada um de vocês quatro, não necessariamente nesta ordem. E as suas vítimas que não conseguiram perdoar os senhores e foram corroídos pelo ódio e pela vingança, também irão participar desse banquete, e já devem estar se deliciando com seu companheiro neste exato momento. E você é próximo. Levante-se.
_ NÃO! SOCORRO! ALGUÉM ME ESCUTE! ALGUÉM ME.. NÃO! NÃO! POR FAV..!

    Totalmente cambaleante e histérico, ele correu para esquina como se tivesse para acontecer com ele a pior coisa possível no mundo. Estendi a mão para cima e mais gritos de loucura ecoavam da esquina até o fim deste beco tão especial, cessando conforme eu abaixava a mão.

_ Eis o trato: atire em seu irmão e o mate, assim meu mestre dará a você mais um tempo. Quem sabe você não consegue se redimir?
_ LEWS? PARE! LE...

    E não é que o garoto atirou? Bem, foi de olhos fechados e atirando na perna, tremendo mais do que chorava. Mas já havia me surpreendido.

_ Se você o matar, Josh, poderá atirar nele por toda eternidade.
_ DESGRAÇADO!

    Não há nada de mais destrutivo do que semear a discórdia em algum lugar. Josh, deitado no chão, apontou a arma para seu irmão, tentando pressionar o ferimento em sua perna com a outra mão. Mas, antes que ele disparasse, Lews atirou no peito de Josh. Cumprindo o acordo.

_ Fiz... minha parte... Agora faça a sua... Por favor...

    Ele largou a arma no chão lentamente... Se ajoelhando para chorar, colocando as mãos em seus olhos.

_ Você está fora da lista, garoto, não se preocupe. Nada irá acontecer. No entanto, o que sua amada mãe vai pensar de você, Pequeno Príncipe? Ela só tem a você agora. Vai conseguir dizer a ela que para não entregar sua alma, precisou matar seu irmão? Ao meu ver só restou a ela um assassino.

    Ele vagarosamente engoliu o choro e pegou a arma de volta.

_ Diga a minha mãe que sentirei falta dela...

    Lews se matou com um tiro na cabeça. Poucos segundos depois, Belial e Asmodeus se aproximam.

_ O que fazemos com os que estão inconscientes?
_ Arraste-os até aqui, assim eles irão acordar lúcidos e ao lado de seus amigos mortos. Deixem que a falta de conhecimento os abrace também. Revistaram eles?
_ Sim, estamos levando apenas o dinheiro que havia com eles.
_ Ótimo, vão na frente, esperem só que eu dê o último adeus.

    Pude ouvir Josh agonizando no chão. Provavelmente ouviu minha conversa com meus secretários.

_ Primeiro: você não vai sobreviver, pois não chamarei socorro. Segundo: este Novo Testamento está em branco, apenas usei do seu cansaço, vício e falta de conhecimento bíblico para fazer tudo isto. Adeus.

    Ele não disse nada, simplesmente fechou os olhos e se entregou. Asmodeus e Belial já tinham trazido os outros e os largaram no chão.

_ Bem, o que querem fazer com o dinheiro extra?
_ Eu soube de uma nova boate que abriu esse mês. Está aberta de sexta a domingo. Querem ir?
_ Uma boa ideia.
_ O QUE A GENTE FEZ, CARA! O QUE A GENTE FEZ!

   Depois de darmos alguns passos em direção a uma praça onde estava nosso carro, ouvimos mais disparos vindos do beco. Sem dúvidas, o conhecimento é a maior riqueza que o ser humano pode ter..."