Um filho rico de um rico pastor, escrevendo sobre sua vida dentro e fora da igreja; em uma sutil forma de poesia.

terça-feira, 20 de maio de 2014

"O Propósito

    Um belo dia, no estacionamento do shopping, quando fui dar um passeio com uma das integrantes de minha seita, um vendedor ambulante apareceu tentando fazer seu trabalho assim que estacionei o carro. Gentilmente, pedi para que a garota fosse na frente enquanto eu fazia uma ligação importante.
 
_ Boa noite, senhor! Meu nome é Daniel. Estou vendendo...
_ Meu amigo, com licença, estou em uma ligação agora.
_ Pelo amor de Deus, eu estou passando por tantas necessidades.
_ Pelo amor de Deus? Desculpe, meu caro, não faço parte do povo Dele.
_ O quê? O senhor não acredita em Deus? Então como...
 
    Desliguei a chamada e desci do carro. Se esse sujeito quer conversar, eu tenho uma empolgante surpresa para ele.
 
_ Como eu o quê?
_ Como o senhor explica a minha libertação das drogas? Sozinho eu jamais conseguiria. Passei dez anos viciado principalmente em bebidas, trouxe muitos problemas para minha família e principalmente para minha mãe. Hoje ela dá glórias a Deus, pois pode dormir tranquila, sabendo que seu filho agora é uma nova criatura. O senhor deve ser inteligente, é rico e jovem, cheio de disposição. Você não acha que Deus tem um propósito na sua vida? Se esta conversa agora também faz parte dos planos de Deus para você?
 
    Às vezes eu me pergunto se Deus sente vergonha alheia da própria criação. Comecei um pequeno questionário para este filho de Deus deixar seu Criador orgulhoso.
 
_ Responda-me uma coisa, você acredita no poder infinito de Deus? Acredita que seu conhecimento é absoluto? Assim como ele está presente aqui, agora, do nosso lado neste estacionamento?
 
    O vendedor deixou seus produtos caírem para levantar as mãos aos céus. Até eu me assustei.
 
_ Acredito! Amém! Deus seja louvado! Obrigado, Senhor, por tocar no coração deste homem!
_ Calma, companheiro, alguém tocou no meu coração, mas com certeza não foi o seu Deus. Se você confirmou tudo que citei sobre Ele, responda-me outra coisa: Ele tinha o poder de livrá-lo a qualquer momento? Ou melhor, antes de você nascer, Ele já sabia do seu vício para poder evitá-lo?
_ Ah... Sim. Quero dizer, não entendi muito bem a pergunta.
_ Deus tem o poder de curar um viciado como você a qualquer momento, mas ele não o faz por algum propósito. Afinal, ser viciado não tem cura, certo?
 
    Daniel estava coçando a cabeça porque provavelmente não esperava ter uma conversa profunda.
 
_ E eu sei que proposito é esse! Ele me usou para glorificar o Seu nome, aleluia!
_ Antes de você nascer, Deus já sabia da sua queda no mundo das drogas. Como se a sua vida já estivesse traçada. E se você ainda nem nasceu, quem traçou este caminho pelo senhor? Quem foi o responsável por determinar esse destino tão terrível? De passar dez anos escravizado por uma substância que destruiu seu corpo e seus laços familiares?
_ Não estou entendendo...
_ O senhor sequer nasceu e já estava condenado a passar por isso tudo. Para glorificá-Lo, Ele o fez perder uma década da sua vida, arruinando seu corpo e fazendo-o magoar as pessoas mais importantes para você. E depois de dez anos, a sua recompensa por exaltar o nome Dele é vender DVDs piratas no estacionamento deste shopping.
 
    Gosto de silêncios constrangedores.
 
_ A... A minha recompensa é a salvação... Nada aqui neste mundo se compara ao que está no reino dos céus...
_ Já está salvo? É mesmo? Foi você que determinou isso antes do senhor nascer ou foi Ele? E se Deus quiser mais dez anos? Vinte? E se essa recaída começar agora?
 
    Destravei a porta do carro e peguei uma garrafa de uísque.
 
_ Desculpe-me senhor, tenho que ir... Não posso...
_ Calma, eu te pago para beber.
 
    Abri a garrafa e dei dois goles lentamente.
 
_ Ainda está gelada. Aqui, pegue, vou te dar isto se você der um gole. Diferente de Deus, eu te dou alguma coisa quando te peço para fazer algo por mim.
 
    Daniel pegou suas coisas no chão para ir embora.
 
_ Se o senhor não quiser, jogarei fora.
 
    Virei a garrafa e comecei a derramar o uísque.
 
_ NÃO! PELO AMOR DE DEUS!
 
    Ele veio correndo pegar a garrafa da minha mão e virou toda a bebida de uma vez. Esse cara fez jus aos dez anos de vício.
 
_ A parte onde você fica com o dinheiro é verdade, não estou brincando. Agora, só para refrescar sua memória, Daniel, a gente concluiu que Deus estaria aqui neste momento, do nosso lado. Pois é, se eu não O conhecesse também, diria que Ele está aqui rindo de você. O seu propósito, senhor, nada mais foi do que entreterimento divino. Assim como todos nós estamos aqui para divertir a sua divina graça.
_ Lúcifer? Você vem?
_ Já estou indo!
 
    Quando a minha acompanhante apareceu na porta e me chamou de Lúcifer, os olhos de Daniel se arregalaram.
 
_ Calma! É só um apelido carinhoso. Ou será que não?"

domingo, 23 de fevereiro de 2014

"A Neo-Inquisição e a Tecnologia

    Muitas pessoas são fascinadas pelo livro de Apocalipse, um livro cujo tema está completamente inscrito em várias metáforas e linguagens figuradas que tentam descrever o mundo no grande dia do Juízo Final. Contudo, se você prestar atenção, este livro tem outro objetivo curioso e de extrema importância: alertar e advertir a própria igreja de uma maneira bem direta.
    Já parou para pensar nisto? Se a bíblia é inspirada por Deus e Ele 'gastou' o último livro para criticar o seu povo, então o assunto com certeza tem urgência. Não que a bíblia como um todo já não sirva para esta crítica, mas o livro de Apocalipse é especial. O principal problema das igrejas antigas quanto modernas são simplesmente o fato de elas serem igrejas, ou seja, o maior inimigo do povo de Deus hoje é ele mesmo. Tenho experiência para afirmar isto porque já cacei pessoalmente a fé de muitos 'irmãos em Cristo', para manter a prosperidade dos negócios e a segurança de nossa seita. Caçar a fé?
   Sim, tal como a igreja católica torturou e queimou milhares de pessoas para garantir a estabilidade e o futuro de sua religião, eu torturei e queimei centenas de evangélicos de outras denominações. Claro que torturar e queimar, da minha parte, estão no sentido figurado. E assim, isto se encaixa perfeitamente no objetivo de Apocalipse, pois atualmente existe uma grande farsa se titulando Reino de Deus aqui na terra, onde a igreja despreparada sucumbirá, enquanto seus próprios companheiros na fé assistem este espetáculo de camarote.
    Você já viu alguma igreja falir? Eu testemunhei várias, porém, houve uma em especial que fiz questão de provocar sua ruína diretamente, afinal, amigos não prejudicam os negócios dos outros. Tudo começou quando li uma estatística publicada no jornal há algum tempo. Resumindo a matéria, a população evangélica no país cresce de ano em ano (com grande peso nos neopentecostais) de maneira assustadoramente lucrativa, já que segundo estas pesquisas, na faixa de 2045, metade da população será classificada como evangélica. Talvez as pessoas vejam esse dado como uma grande revolução religiosa nacional, todavia, eu particularmente vejo isso com consequências muito mais interessantes.
    Dizer que metade do povo de um país será evangélico é assumir um caos protestante iminente. Pense bem: se nos dias de hoje as igrejas lutam para dizer com quem está a verdade e preparam seus fiéis com estudos bíblicos para debates, apontando deliberadamente os 'defeitos' doutrinários de cada concorrente segundo a Palavra, imagine quando metade das pessoas desse lugar for evangélica. Não haverá mais espaço para a cordialidade cristã e o bem social, ambos serão crucificados como Jesus. E as consequências ainda não acabaram. O que nos espera depois de 2045? Eu não duvido de uma possível segregação social dependendo de sua denominação e também não duvido que a minoria ateia seja perseguida ferrenhamente assim como os cristãos já foram um dia.
    Eu estava prestes a me arrumar para um culto até então normal de domingo, quando recebo uma mensagem interessante de um dos meus secretários pelo celular cujo assunto se trata de visitas, visitas importantes. Outro filho de um pastor de outra denominação estava prestes a chegar à nossa igreja. Fiquei curioso para saber se esse jovem anda realmente pelos caminhos do Senhor, ou se é apenas mais um joio convivendo com trigos. Porque se fosse alguém pertencente a mesma igreja que a minha, com certeza eu saberia em minutos se ele faz parte de alguma seita ou não.
    No estacionamento, logo vi meu ilustre convidado chegar, pois observei um carro estacionado que nenhum 'irmão' teria poder aquisitivo para comprá-lo, a não ser que fosse um pastor ou filho de um. Ao encontrar meus dois fiéis servos na recepção, eles me indicaram qual era o jovem e que por sinal estava acompanhado de sua bela namorada.

_ Senhor Lúcifer, o nome dele é Nolan. Ele deseja conversar logo após o culto no gabinete pastoral. Como responderemos?

    Cara de atitude, nem precisei ir até ele.

_ Podem confirmar. Mas, no final do culto, peçam à Rute para conduzir nossa visita a um lugar mais reservado, e que consiga alguma demonstração de 'carinho' da parte dele. Filmem e fotografem cada momento.
_ Entendido.

    Ah, minha doce Rute! A garota de maior influência em minha seita, uma das poucas pessoas que me fariam perder um debate doutrinário. Enfim, apertei a mão de alguns congregantes e sentei nos últimos bancos da igreja para assistir melhor o comportamento de meu convidado, para tirar algumas conclusões. Logo percebi o desdém em tentar disfarçar a sua falta de crença. Nas orações ele usava sorrindo seu tablet e durante a pregação bocejava como se estivesse assistindo algo que jamais fosse usar em sua vida, e de fato não iria. Sua maior demonstração de participação no culto foi ao final, quando meu pai citou os nomes dos visitantes e os mesmos se colocaram de pé para que se apresentassem.

_ Boa noite, sr. Nolan! Por favor, o gabinete pastoral fica naquela direção. Nosso líder, Lúcifer, o aguarda.

    Meus dois secretários o abraçaram calorosamente e fizeram o sinal para Rute.

_ Com licença, querida, tenho assuntos a resolver.

    O casal se despediu dando um carinhoso beijo.

_ Tudo bem, vou dar uma volta.

    Todas as vezes após o culto de domingo, inicia-se uma pequena confraternização entre os membros com café e pequenos doces. Aproveitando esta oportunidade, Rute o abordou e conduziu sua vítima para perto do banheiro e por lá eles devem ter se entendido. Eu já estava no gabinete pastoral, usando um notebook conferindo os eventos que teríamos este ano em minha seita.

_ Com licença, posso entrar?
_ Por favor, Entrem. Nolan, sente-se. O que deseja?

    Ele se sentou e colocou os pés na mesa, cruzando os dedos atrás da cabeça.

_ Sua seita está ultrapassando os limites de sua denominação. Espero que o senhor... Lúcifer, não é? Que pseudônimo ridículo... Esteja ciente dessa situação e que tome as devidas providências. Não precisamos ser inimigos, correto?

    Apesar da indelicadeza, por um lado eu o entendo. Minha seita vem apresentando visitantes a cada mês e para manter isto obtendo lucro, preciso da contribuição financeira assídua de todos os membros. Se por acaso algum deles sair, matematicamente é uma quantia a menos no orçamento, falando em termos de influência, teremos duas opções: ou este antigo membro não precisa mais ir obrigado à igreja (o que raramente acontece), ou encontrou uma seita 'melhor' para ficar.

_ Com certeza não precisamos! Também sinto muita impaciência e insatisfação em seu comportamento, meu caro. Logo, estou vendo na minha agenda pessoal que teremos uma reunião de minha seita hoje, aqui no templo, às onze da noite. Como prova de minhas desculpas sinceras, deixarei com você esta cópia da chave da igreja, para que o senhor mesmo dê as boas vindas aos meus membros. O que acha?

    Como esperado, ele se assustou um pouco com a ideia. Ficou tão surpreso que passou a se sentar direito na cadeira.

_ Bem, é... Sinceramente... Não esperava tamanha hospitalidade, estou realmente surpreso. Mas aceitarei a proposta. Às onze estarei aqui com minha namorada.

    Abri uma gaveta, peguei um molho de chaves e indiquei qual era. Não haverá reunião alguma hoje, só amanhã.

_ Até mais tarde, Nolan. Conversaremos num ambiente mais agradável com música, bebidas e 'brincadeiras' para descontrair. Por favor, acompanhem-no até a saída.

    Ele se levantou e saiu sorrindo... Ah... Um leve sorriso... Eu vi que na gola da camisa social dele havia uma pequena abotoadeira com um símbolo marcante, específico de uma determinada denominação. E pelo seu patamar financeiro, deve pertencer à igreja central desta doutrina. Já temos um lugar para investigar.

_ Senhor, Nolan e sua namorada já foram embora. Belial ainda está cuidando dos preparativos para amanhã à noite. Deseja algo mais?

    Disse Asmodeus.

_ Sim, vamos imediatamente nos encontrar com ele e pegar um dos carros da seita, vamos andar pela cidade.

    Ao nos encontrarmos, fomos até o subsolo da igreja onde temos uma garagem com quatro carros, um para cada. Particularmente gosto do meu, um modesto McLaren X-1 preto.

_ Pesquisem por esta denominação aqui na cidade, procurem o endereço de onde fica a igreja principal.

    Passeando pela iluminada e badalada cidade num domingo à noite, cheia de letreiros coloridos e ofuscantes de boates baratas, meus secretários sugavam o máximo possível de informações, em sites de busca, blogs e perfis pessoais de pessoas próximas, procurando cada detalhe.

_ Senhor, na igreja principal aqui da cidade dessa denominação, o pastor se chama George Roust. No seu perfil do Facebook, indica nosso nobre visitante Nolan como seu filho. Em sua página também segue o endereço e um link para o site da igreja.
_ Então vamos até o endereço.

    Ah, internet, um dos maiores pecados da humanidade no século XXI. Para surpresa de meus companheiros, a igreja estava decrepita, urgentemente necessitando de reformas. Para mim, era só mais uma prova do que eu pensava a respeito de Nolan.
    O principal local de uma seita, seja de que denominação for, vai acabar sendo a própria igreja. É o local mais acessível, é de graça e estará acima de qualquer suspeita. E como podemos ver, o principal local da seita de nosso querido visitante está aos pedaços.

_ Já precisei ver o que queria pessoal, vamos voltar à igreja. Peguem suas armas.

    Eu já estava terminando de criar os meios de tortura fisica e psicológica que usaria em Nolan, quando sou realmente surpreendido no estacionamento de nosso aconchegante templo.

_ Saiam do carro! AGORA!

    A namorada dele estava no início da escadaria apontando uma pistola Taurus contra o carro. Antes de descer, avisei para meus amigos não reagirem a esta atitude estúpida.

_ Boa noite! Se eu não me engano, seu namorado deve estar no meu computador procurando por dados bancários. Não preciso ser onisciente para saber disso.

    Era nítida sua expressão de espanto.

_ Então eu me pergunto: por que uma garota está com um cara que a faz segurar a pistola, arriscando a vida dela para conseguir alguns trocados que não vão resolver o problema?
_ Que eu saiba você não tem só alguns trocados.
_ E realmente não tenho, quem tem é a igreja. Na minha conta tem as sobras da minha humilde mesada que com certeza não irão cobrir o abismo feito pelo seu namorado nas economias de sua seita. Naquele notebook estão apenas os meus dados bancários.

    Ela se aproximou e encostou a arma no meu queixo.

_ Então você vai subir agora e passar os dados da conta da igreja.

    Dizem que a maior arma do Diabo é fazer as pessoas acreditarem na sua não existência, mas eu discordo. Para mim, a maior arma do Anjo Caído sempre será o poder da insinuação, aquelas palavras suaves no ouvido que provocam as reações mais destrutivas possíveis. Se serve de exemplo, a humanindade está desse jeito hoje simplesmente porque a serpente insinuou a Adão e Eva que um fruto os tornaria iguais a Deus.

_ Você ainda não entendeu minha jovem? Ele tem outra.
_ Como é que é? EU NÃO TENHO MEDO DE PUXAR ESSE MALDITO GATILHO!

    Levantei as mãos vagarosamente e mostrei a ela que queria puxar algo de dentro do meu blazer.

_ Assim como ele não tem medo de te trair.

    Revelar à ela as fotos forjadas de Nolan com Rute pelo meu celular foi a mesma coisa de atirar a queima roupa com uma espingarda 12mm.

_ Essa garota com ele na foto pertence a minha seita. E ela falou que seu amado príncipe pretende pegar o dinheiro esta noite e fugir para algum lugar bem longe. Obviamente não é você quem vai fugir com ele. Por que não vamos até lá em cima? Estou louco para ver você atirar nele.

    Por um instante o olhar dela estava direcionado para o horizonte, como se várias lembranças boas em sua mente se tornassem um veneno doloroso e paralisante. Aproveitando este momento, levantei a mão dela que estava com a arma e me aproximei. Fui chegando perto como se fosse falar algo em seu ouvido, mas dei um beijo nela. Particularmente eu não entendi esse momento, pois o beijo começou lentamente, mas depois ela me empurrou com força. Talvez ela precisasse de espaço e tempo para refletir.

_ Uma garota com tanta coragem é muito bem vinda em minha seita. Você não precisa ficar sozinha, afinal, agora temos um inimigo em comum.

    Ela abaixou a cabeça e de repente começou a subir as escadas como se estivesse prestes a matar alguém.

_ Sigam-me e chamem a polícia.

    Pedi para meus secretários me darem cobertura enquanto tento impedir uma garota pseudo traída de matar seu ex-namorado. Tarefa difícil, principalmente quando ela tem uma arma.

_ Espere! Agora não!

    Ela já estava bem perto da porta do gabinete pastoral.

_ NINGUÉM VAI ME IMPEDIR DE MATAR AQUELE CARA!
_ Eu vou, pois tenho uma ideia melhor.

    Coloquei as mãos para cima e fui caminhando até ela.

_ Por que você não assiste sentada na minha poltrona um pouco de violência gratuita? Tipo, eu e meus colegas espancando aquele imbecil? Mas antes, deixe-me fazer um pouco da minha especialidade: terror psicológico. Espere aqui fora, quando eu terminar, você pode atirar nele.

    Ela abaixou a arma.

_ Não pense que confio em você, mas depois do que você me mostrou, atirar naquele miserável realmente seria muito fácil para ele. Não consigo acreditar no que ele fez, mas a foto é muito atual... Até eu vi essa garota mais cedo na igreja conversando com ele...
_ Podem vir rapazes, vamos nos divertir.

    A garota se afastou do gabinete e se sentou em um dos bancos enquanto eu fechava a porta.

_ Boa noite, Nolan.

   Nós três estávamos com ele na mira.

_ Antes de mais nada, eu gostaria de fazer uma pergunta ao meu convidado especial. Hoje você disse que a minha seita estava indo além das fronteiras da denominação. O senhor poderia ser mais específico?

    Ele também tinha uma arma, porém, estava congelado com a situação e mal conseguia tirar a mão do teclado do notebook.

_ NÃO ATIRE! Eu... Fa... Fa-falo no sentindo econômico. Venho perdendo membros mensalmente para várias seitas, mas para sua principalmente...
_ Ainda bem, achei que você procurava vingança por causa disso.

    Joguei meu celular no colo dele. Quando consegui um beijo de sua namorada, eu ainda segurava o celular com a mão. Não podia perder a chance de tirar uma foto de um momento tão romântico.

_ Não... Não pode ser... Você... SEU DESGRAÇADO!

    Nossa, que rapaz apaixonado. É preciso muito amor para avançar contra três homens mirando Desert Eagles em você. Não que eu seja um mestre das artes marciais, porém consegui imobilizá-lo para poder fazer algo muito mais divertido do que atirar nele: insinuar alguma coisa.

_ Que patético! Aposto que você não tem a mínima ideia de como atirar em alguém. E já que o senhor não vai sair daqui com nenhum centavo, gostaria de tentar recuperar pelo ou menos a sua honra? Reflita comigo: se você tem perdido tantos membros assim, com certeza alguém de dentro da sua seita vem convencendo outros integrantes a procurarem outra. A garota está sentada em um banco aqui na igreja. Ninguém vai poder ouvir os gritos de vocês. Nem mesmo os tiros.
_ TIRE AS AS MÃOS DE MIM!
_ Recomendo que você já apareça atirando.
_ AGORA!
_ Vamos considerar isto um sim. Cavalheiros, abram a porta para a fera.

    Nolan saiu correndo para o salão principal. Ouvindo o barulho de passos se aproximando, a namorada dele se levantou. Com certeza foi uma das cenas mais perfeitas criadas por mim: namorados disparando um contra o outro só de terem se visto.
    Ele acertou na perna dela e ela no ombro dele. Ambos péssimos atiradores, incrível. Quando caíram no chão sentindo muita dor, eu coloquei um par de luvas e me aproximei, chutando a arma de cada um para longe.

_ Agora que vocês já discutiram a relação, preciso confessar uma coisa. A garota que está na foto com Nolan, fui eu quem a mandou tentar alguma coisa com ele, eles não se conheciam. Ela conseguiu no máximo roubar um beijo, mas ele a afastou e entrou no gabinete pastoral. Muito feio da sua parte, garota, ter desconfiado dele só por causa de uma foto. Já sua namorada não é uma traidora da sua seita, meu amigo, muito pelo contrário, naquela escadaria ela teria me matado ou morrido por você. Lindo, não?

    Os dois se olharam com o maior arrependimento do mundo, estavam chorando calados. Quando eles estenderam a mão para ficar de mãos dadas, eu pisei na mão de Nolan primeiro.

_ No inferno vocês não podem mais concertar as coisas, certo? Pois então, quero os dados da sua conta bancária e da sua seita.
_ MINHA MÃO! EU NÃO VOU PASSAR COISA ALGUMA SEU MANÍACO! SAI DE CIMA DA MINHA MÃO!

    Eu peguei a arma dele e me aproximei sorrindo de sua namorada.

_ Eu não tenho medo de puxar esse maldito gatilho! Alguém disse isso para mim. E a propósito, a arma nem é minha mesmo.
_ Sr. Lúcifer? Perdoe o meu atraso.

    Era a polícia, o oficial Preston já é meu conhecido desde o começo de nossa seita. Lógico que uma quantia gorda é necessária para mantê-lo tão submisso.

_ GRAÇAS A DEUS! A POLÍCIA! ESSE CARA É UM PSICOPATA! TIREM A MINHA NAMORADA DAQUI, LEVEM-NA PARA O HOSPITAL! PELO AMOR DE DEUS!

    Preston e eu nos olhamos. Quase choramos de rir.

_ Olhe, meu bom cidadão, este psicopata me paga muito bem para cuidar da segurança dele. Então, já que o senhor está armado e baleado na igreja dele, será encaminhado para um hospital e logo em seguida para a delegacia e lá prestará depoimento. Na verdade, você já vai apanhar aqui e vamos jogá-lo numa cela cheia companhias agradáveis.
_ Preston, você tem sido um ótimo policial. Como agradecimento, esse sujeito deve ter alguns dados bancários dele na carteira. Pode ficar com tudo. Considere isso um bônus, seus honorários normais não serão alterados.
_ Fico feliz em receber uma ligação sua, sr. Lúcifer, passar bem. Rapazes, tirem esse idiota daqui.
_ Antes de levá-lo, estou devendo um pouco de violência gratuita a alguém.
_ NÃO! NÃO FAÇA NADA COM ELE!

    A namorada dele gritou com a voz rouca de dor.

_ Eu avisei a ele que ninguém conseguiria ouvir gritos aqui.

    Eu e meus secretários estávamos sentados olhando todas as partes do corpo de Nolan sendo chutados pelos policiais.

_ Nolan, você pode até achar o meu pseudônimo ridículo, mas eu o tenho por um bom motivo. Podem levá-lo.

    Os homens de Preston o levaram inconsciente para o carro da polícia.

_ Você é um monstro...

    A namorada dele cuspiu no meu pé.

_ Então vocês procuram a minha igreja para levar tudo que é meu e eu sou o monstro? Diga-se de passagem, eu poderia morrer nesse processo e o casal da santidade não daria a mínima. Faça-me o favor de engolir a sua saliva nojenta!

    Passei meu pé na roupa dela para limpar meu sapato social, afinal, ele é bastante raro e caro.

Tirem ela daqui. Até mais, Preston.

    Quando a polícia finalmente saiu com os dois presos, pude apreciar os estragos causados por essa "festinha".

_ Bem, rapazes, limpem essa bagunça e me liguem se precisarem de algo. Não se preocupem, neste mês todos receberão dobrado. Boa noite.
_ Boa noite, Mestre..."